14 de ago de 2008

vidas depois

Ao entrar naquela sala quase que escura, habitada por duas lâmpadas que levavam uma luz suficiente para ver quem estava no mesmo cômodo e seus respectivos movimentos, um arrepio seguiu o contorno de minha espinha. 'Quem será que vai baixar aqui?' pensei, ingenuamente. O ritual começou. Os dois bancos da sala mediana eram localizados um de frente para o outro, encostando seus limites na parede pintada de branco. Apesar de se encontrarem quase cheios, o ritual não demorou muito. Mas foi o suficiente para passarem mil coisas inúteis a minha cabeça. A janela semi-aberta possibilitava que os pingos da chuva entrassem como trovões em meus ouvidos. Os raios eram fortes e, chega minha vez. Olhos fechados, coração batendo tão forte. Tão forte que aposto que qualquer um que estava ao meu lado conseguiu ouvi-lo. Outro arrepio percorre minha espinha, mas não um arrepio que se senti quando entrei lá. Muito menos aqueles que se sente quando alguém fala no ouvido ou passa a mão na nuca. O arrepio, dessa vez, foi aquele que nunca havia sentido antes. Apesar de não estar entendendo muito o que estava acontecendo e, confusa sobre o que havia na água que ofereceram-me para que ingerisse, tomei conta de que não precisam de explicações. Certos fatos ocorrem de acordo com a necessidade de cada espírito.
No momento que estava debaixo daquele teto, senti a segurança que poucas vezes esteve junto comigo lado a lado com minha face. Lado a lado com cada defeito, cada qualidade, cada ato e palavra, cada situação e pensamento que algum dia cruzaram meu caminho. Ao sair, senti tudo o que a noite proporcionou desaparecer em segundos. Senti que é melhor assim. De nada adianta demonstrar o que ocorre na minha cabeça se o teto que me acolhe não é digno de tanta sinceridade e honestidade.

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