24 de jul de 2009

Amar-te-ei

depois de sair daquele sebo de livros, lembrei que a ultima vez que eu estive lá foi com ele. e depois aconteceu aquela discussão, briga, não sei nem nomear. e desde então, nunca mais nos falamos. eu só lembro que corria, corria e corria. desesperadamente, sem fôlego. havia até esquecido como é que se respirava. o que mais há pra se fazer a não ser correr tentando se esconder de um atormento? tentar fugir não é o melhor a se fazer, porque não resolve nada. mas não deixa de ser uma opção. corri até achar um beco escuro e molhado, graças a chuva.
o cigarro tinha acabado, justo na hora que eu mais precisava de alguma coisa a que segurar. quando voltei a respirar e me dei conta que ainda estava viva – infelizmente – e comecei a chorar. um choro silencioso, daquelas lágrimas que caem sem se quer nos deixar ciente que estão caindo. um choro gritando por uma sensação ainda desconhecida, que vai além da calma e do conforto, que vai além da maior paz de espírito já vista. uma sensação de que nada nunca aconteceu, de ter esquecido de tudo o que já foi vivenciado, visto, lembrado, ouvido, tudo. zerar, recomeçar. mas, como, quando tudo já foi falado e vivido? como sair da própria vida? como recomeçar? por deus, como? até mesmo um suicídio não resolveria, eu estaria presa a minha alma pra toda a eternidade. não sabia nem mais o que pensar.
a chuva engrossando cada vez mais. e meu desespero aumentando. parecia que o céu estava chorando comigo, entendendo a minha dor. eu queria gritar, mas não tinha forças. encostei minhas costas no muro, e fui deslizando pra baixo, até sentar. toda molhada, roupas encharcadas, meus olhos viam só o embassado que a noite estava proporcionando.
a única solução que passou pela minha cabeça foi ele. mas como? se a maior parte do meu desatino estava relacionado a ele mesmo? não tinha nem cabimento chegar lá naquele estado. se bem que sua casa estava a uns quinze quarteirões. deus, o quanto eu corri? eu sempre reclamava da distância, sempre irritada que tinha que passar trinta minutos dentro de um trem de metrô para vê-lo. e só fui me dar conta agora que, sem pensar, corri na direção da sua casa. eu, sempre dependente; você, sempre me julgando pela necessidade física e psicológia que sempre tive de você.
eu nunca soube o que fazer, mas nunca tinha chegado a esse ponto de angústia. comecei a procurar nos bolsos da calça pra ver se achava alguma coisa. nos bolsos da frente, um extrato esquecido e um prendedor de cabelo. no bolso esquerdo trazeiro, uma nota de cinco reais, encharcada. pensei se valia a pena procurar algum lugar pra comprar cigarros, já que eu estava quase tendo um ataque de pânico por não ter nada o que segurar. escurecia ainda mais, a rua um tanto deserta. com algum esforço e com a ajuda da precisão, consegui levantar. as lágrimas cessaram, finalmente, mas a fraqueza tomava conta de mim. o vento frio parecia entrar em mim, mas eu não desisti para sentar denovo e continuar lá porque avistava uma luz, provavelmente um buteco qualquer. atravessei a rua e andei dois quarteirões. uns cinco homens que estavam bebendo e jogando cartas me olharam como se dissessem “quem diabos é essa pessoa e o que diabos ela faz nesse estado aqui?”, mas eu me recusei a prestar atenção.
quando saí de lá, parecia estar mais escuro ainda, quase que no ápice da noite. que horas eram? não tinha idéia. tinha perdido a noção de tempo, de espaço e de lugar. dei um trago, e não sei se soltei a fumaça ou um suspiro. pensava se ia vê-lo, se não ia. se valeria a pena ou não, se ele estaria acompanhado…
comecei a andar sem pensar, olhando as luzes, o sereno que insistia em cair, parecendo querer dizer que estava me acompanhando. os carros passavam rápido, a velocidade do som propagava algumas músicas, algumas pessoas passavam andando quase-que-correndo, algumas com guarda-chuvas, outras sem. alguém conversava no celular, outros esperavam nos pontos de ônibus. tudo típico de uma cidade grande, abandonada por deus, aonde ninguém se importa com ninguém, a não ser você por si mesmo.
quando vi, estava naquela pracinha de bancos azuis, aonde nós passamos tantas tardes lendo livros, conversando e apreciando a vida. o que queria dizer que eu estava perto de sua casa. uns cinco quarteirões. você me conheceu quase que completamente, então sabe que sou impulsiva e ás vezes faço coisas que nem eu sei o porquê. se espantaria se chegasse encharcada em sua casa, numa quinta-feira de feriado, ás seilá quantas da noite? sentei no terceiro banco azul, o perto da árvore mais alta, aonde um dia escrevemos as nossas iniciais lá. será que continuavam ali, depois de tanto tempo? procurei com os olhos, e quando achei, passei os dedos para memorizar aquilo.
quando estava mais calma e um pouco mais seca, resolvi levantar e ir até você. não importava a sua reação, já que eu nem tinha parado pra pensar nisso. só tive o impulso de ir. não importava se você ia me chingar ou não, se ia me chamar pra entrar e me dar uma toalha pra eu me secar. não importava nada, só precisava te ver. e, naquele momento, você era a única coisa que eu precisava ter em mãos.
sabia que se parasse pra pensar se tocaria a campainha ou não, quando estava na frente de sua porta, acabaria desistindo, então a toquei logo. nesse exato momento meu coração disparou completamente, de um jeito que havia tempos que não sentia. uma adrenalina, não sei, não conseguia descrever.
eis você, cabelo bagunçado, de boxer e chinelo de dedo. exatamente como me acordava todos os dias para me fazer levantar e tomar o café que você sempre preparava pra mim. sua feição que mudou. o jeito como você me olhou foi completamente diferente do jeito que você olhava pra mim quando eu insistia pra ficar mais meia hora deitada, e falava que não precisava comer. eu não tive outro impulso a não ser desmoronar. mais uma vez, na sua frente. dessa vez com a ajuda do chuvisco. eu não sabia se você ia falar pra eu ir embora, se ia pedir pra eu entrar, se ia fechar a porta na minha cara, não sabia de nada. não sabia o que esperar. e sua reação foi completamente diferente de tudo o que eu cogitava. quando eu senti o seu abraço me envolvendo e me puxando pra dentro, comecei a desabar mais ainda. só de ver que você não tinha mudado. só de ver que eu ainda podia contar com você, apesar de tudo. eu pensei que o máximo que você podia fazer era me entregar uma toalha, mas não. você voltou com aquele meu-seu pijama, aquela sua camiseta branca que eu tanto gostava de dormir, e com aquela minha calcinha de algodão que eu nem lembrava mais que existia, e que me sentia tão a vontade com ela. sinceramente, não lembrava de tanta coisa que gostava. esqueci de tudo desde aquele episódio que nunca tirei da cabeça.
tomei um banho quente, e quando sai, um pouco envergonhada, você havia pedido um yakissoba e um suco pra mim, já que não havia coisa que eu mais gostasse de comer do que isso. não sabia nem o que dizer, nem o que fazer, nem como olhar pra você, já que não tinha falado uma palavra desde quando cheguei.
e você falou por mim, – você tá bem? come isso, parece que você não come a dias. e eu não consegui fazer nada a nao ser sentar lá e começar a comer. quando estava na metade, e você ainda me olhando como se esperasse eu dizer o porque daquilo tudo. e como sempre quando eu não sabia o que fazer, eu ri involuntariamente.
- por que que quando você aparece fica tudo bem? -, finalmente consegui sussurrar.
- porque eu vou te salvar sempre -, e me deu um beijo na testa.
- tá tudo bem?
- agora sim.
e eu sabia que tava. eu sentia que tava. depois de ser levada ao seu quarto e sentir seu corpo transmitindo calor para o meu e fazendo o meu medo desaparecer, tudo ficou mais sintetizado, tudo mais concreto. tudo mais claro, mais limpo. tudo como devia estar. só de sentir sua boca passando pela minha orelha e sussurrando que ainda me amava, e estava esperando o dia que eu ia bater à sua porta, eu senti a paz de espírito que eu precisava. tudo o que eu precisava – e preciso, aliás – é ficar perto de você e te sentir perto de mim.

Anna Beatrice.
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daqui: http://introspeccao.wordpress.com

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