27 de jul de 2009

se refez, se perdeu, se conquistou

Lembrando que em uma de suas idas pra lá ele estava usando esse mesmo casaco, não sabia se se sentia contente ou abatida. Não sabia se ficava feliz, por lembrar dele vindo á sua direção com aquele sorriso de canto e apressando o passo para poder abraçá-la logo, ou por apenas ter isso como lembrança. Também não sabia que sentimento ter por pensar que, sim, estava vestindo esse mesmo casaco - e desde quando o pegou não o tirava de perto dela, usava-o como uma segunda pele, sentindo que com ele o sentia por perto -, e o cheiro dele parecia persistir em não deixá-lo - em não deixá-la -, mas casaco não tomava o lugar do dono dele. Apesar de sentir-se feliz em recordar todas as lembranças que um simples casaco pego de propósito a trazia, logo vinha aquele vazio que ela tanto ignorava desde quando deixou aquela cidade. Aos prantos. Desesperada pelo vidro da janela do ônibus, ainda mais depois de ver sua silhueta indo até o carro aonde minutos atrás os dois haviam descido para esperar a chegada da ida. Vendo-o andar lento, até o carro. Vendo-o desligar o alarme. Vendo-o dar a partida. E não vendo mais nada, o ônibus já seguindo sua rota, abandonando seu ponto de refúgio. Se sentia tão vazia que esse vazio que sentira dispensa explicações. E quando lembra de tudo isso, sente o mesmo vazio. A mesma dor. Por mais que saia, só sai pra tentar se distrair. Por mais que ri, é um riso falso, sem sentido - e isso é percebido no momento em que olham em seus olhos. Por mais que finja que está tudo bem - pros outros e até pra ela mesma -, sabe que tudo se encontra bem longe de estar bem. Tudo encontra-se frio e escuro. E ela se sente mais perdida do que nunca. Sabe o que fazer, e como fazer, pra contornar a história, mas sabe também que não é nada fácil. Sabe a dor que está se disponibilizando a sentir, e sabe também que ela vale a pena. Por mais que doa, que arda, que ela sinta como se o corpo dela esteje sendo rasgado, corroído, multilado, ela é forte pra suportar. As vezes desaba, claro, ninguém é forte o bastante pra isso - e nem precisa ser. E sabe que um dia tudo isso vai valer a pena. Porque sabe que o que está sentindo é diferente de tudo o que já sentiu. Sabe que não pode ser em vão. Sabe que não é em vão. Sabe também que, por mais que o casaco a lembre de que não está perto de quem precisa, ele é seu refúgio. É nele que ela se esconde quando sabe que não está nada bem. São nas lembranças que ele a traz que ela se encontra dando um sorriso sincero, de quem sente o tipo mais bonito de saudade. Como se fosse um escudo que a protege contra essa rotina que ela leva, contra essa necessidade que ela tem dele por perto, contra tudo. Seu refúgio. E que a leva diretamente a pessoa que ela mais necessita, a causa da imensa felicidade que sente no curto intervalo de tempo que tem do lado dele. A causa dela ainda estar aguentando tudo isso, e a sua única certeza. A certeza de que vai dar certo. Não importa quando, nem onde, nem como, nem porquê. Mas lá no fundo ela sente que vai dar certo. E isso mais do que a deixa capaz - isso faz sentir-se capaz.

Nenhum comentário: