29 de jun de 2010

O mito da mulher misteriosa, por Tati Bernardi

E eu, como estava dizendo, sempre quis ser dessas mulheres imperfuráveis, inatingíveis, inaudíveis e incompreensíveis. Mas nunca consegui. Quando vou ver, já contei minha vida pra primeira pessoa que me deu um pouco de atenção. Já to rindo alto no restaurante porque não me controlei e fiquei feliz demais. Já escrevi um texto sobre o fulaninho da terça passada e publiquei numa revista. E o fulaninho ta morrendo de medo porque escrevi que gosto dele. E se alguém perguntar, vou dizer mesmo que goste dele. E se ele não gostar de mim, minha tristeza não será segredo para ninguém. E minha pasta de dente é para deixar os dentes branquinhos. E quando vou ver, lá se foi a mulher misteriosa que eu gostaria tanto de ser. Porque eu jamais poderia ser uma.

11 de jun de 2010

Desconexo

São quatro da manhã e eu ainda acredito no resultado de testes feitos pela internet. Engraçado como a força que ainda está me mantendo acordada mesmo estando quase caindo de sono não atua com a mesma intensidade quando estou desmoronando. Crise existencial-psicológica-física-estrutural-emocional devorando cada pedaço de otimismo que grita para não sumir. "Dia regular, acho que choveu. Gostaria de sentir os pingos da chuva como antes. Gostaria de sentir como antes.". Esse violão eu-vim-da-bahia-mas-um-dia-eu-volto-pra-lá - volto pra onde? Home is where the heart is, mas aonde está o coração? (Ele ainda está?) Vento gelado vindo dos vãos das portas e janelas, mesmo fechadas, trazendo de lá fora tudo o que tento trancar. Confusão confusão confusão confusão confusão quanto mais eu penso mais eu fico confusa isso já aconteceu com você? São quatro da manhã e não tiro o pensamento disso que nem sei se existe, existiu, existirá, aconteceu, sonhei, delirei, cuspi, montei, armei, firmei. E sinto.

9 de jun de 2010

re-amar

Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também. Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar.



Caio Fernando.